O mundo enfrenta "a maior ameaça à segurança energética da história". Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a Europa possui reservas de combustível de aviação para apenas "cerca de seis semanas". Da mesma forma, países como Paquistão e Filipinas estão a poucos dias de ficarem sem gasolina nos postos.
A guerra e o bloqueio do Estreito de Ormuz causaram a maior interrupção no fornecimento de petróleo bruto já registrada. Segundo Maurizio Carulli, analista da Quilter Cheviot, em entrevista à Euronews, o fechamento prolongado dessa importante via navegável retirou aproximadamente 12% do fornecimento mundial de petróleo do mercado, um impacto muito maior do que o da Guerra do Yom Kippur ou da invasão do Kuwait.
Por 65 anos, a dinâmica global permaneceu inalterada: os países produtores, agrupados na OPEP, ditaram os volumes e as regras do jogo. No entanto, a magnitude dessa crise está levando economistas a considerarem uma mudança radical de paradigma, na qual o equilíbrio de poder se inverterá.
"OPEP reversa"
Para lidar com esse domínio do mercado, o economista Gregor Semieniuk, da Universidade de Massachusetts Amherst, e sua colega Isabella Weber propõem uma ideia revolucionária: a criação de uma "OPEP reversa". Como detalha a revista Fortune, trata-se de uma coalizão global de países importadores e consumidores de petróleo atuando como um bloco.
Em vez de controlar os volumes de produção como faz a OPEP tradicional, este clube de consumidores estabeleceria um teto de compra ou preço máximo. Conforme explicado no site financeiro Reelfinancial, o principal objetivo é evitar uma guerra de lances na qual as nações ricas monopolizam o fornecimento de energia, elevando os custos a ponto de excluir os países de baixa renda do mercado.
Essa ideia não é infundada. Os próprios especialistas apontam que a AIE (Agência Internacional de Energia), fundada em 1974, foi criada justamente como um contrapeso institucional para as nações consumidoras contra a OPEP.
Desde que o ex-presidente dos EUA, Ronald Reagan, eliminou o controle dos preços do petróleo em 1981, o sistema tem sido regido quase exclusivamente pelo livre comércio. No entanto, Eswar Prasad, professor da Universidade Cornell, explica na revista Fortune que a economia internacional ficou presa em um "jogo de soma zero". Prasad compara a atual crise energética ao armazenamento de vacinas e suprimentos médicos pelos países ricos durante a pandemia, deixando as nações mais pobres em situação de escassez.
O roteiro segundo especialistas
Para implementar esse plano, Semieniuk destaca que os Estados Unidos estão em posição ideal para liderar a nova coalizão de compradores. Como exportador líquido, com um superávit comercial de energia projetado para quase US$ 100 bilhões em 2024, Washington possui a influência financeira e geopolítica necessária para forçar mudanças, explica a Fortune.
Além de coordenar tetos de preços, economistas defendem a aplicação de impostos extraordinários sobre gigantes como ExxonMobil e Chevron, empresas que continuam lucrando consideravelmente com a alta dos preços do petróleo bruto.
A mecânica dessa forte intervenção estatal se justifica pela gravidade da situação. Diante de um bloqueio militar sem precedentes, os governos precisam assumir um papel muito mais ativo para garantir o acesso equitativo à energia, deixando claro que, em tempos de guerra, o livre mercado não pode ser o único mecanismo de resposta.
Essa proposta dos consumidores surge no momento exato em que o cartel histórico de produtores está ruindo. Os Emirados Árabes Unidos (EAU) se retiraram oficialmente da OPEP, priorizando seu "interesse nacional". O impacto desse rompimento é tectônico. Em um artigo de opinião publicado pela Reuters, o analista Ron Bousso alerta que, após o bloqueio do Golfo, a participação da OPEP no mercado global já havia despencado para 26% em março. O cartel está perdendo rapidamente sua capacidade de dominar e estabilizar os mercados.
A crise da OPEP não é puramente econômica; suas raízes são profundamente políticas e territoriais. O analista Robin Mills explica que a OPEP estava forçando os Emirados Árabes Unidos a limitar sua produção a 3,2 milhões de barris por dia, embora o país tivesse investido bilhões para atingir uma capacidade real de 5 milhões.
Essa tensão em torno das cotas é agravada por uma clara ruptura diplomática no Golfo. Os Emirados Árabes Unidos se sentem traídos e abandonados por seus aliados árabes após terem que absorver o impacto de quase 2.800 ataques de drones e mísseis iranianos.
Consequentemente, o cenário geopolítico está sendo rapidamente redesenhado. Joe DeLaura, especialista em energia do Rabobank, enfatiza na revista Intelligencer que o mundo caminha para blocos fragmentados. Os Emirados Árabes Unidos estão se aproximando estrategicamente dos Estados Unidos em troca de proteção para sua navegação, e DeLaura prevê que países como o Cazaquistão poderão ser os próximos a se rebelar contra as cotas da OPEP.
Em seu artigo de opinião para o Le Monde, Stéphane Lauer resume a grande ironia histórica desse colapso: a OPEP, criada na década de 1960 a partir de um forte desejo de soberania nacional contra as potências ocidentais, agora se fragmenta "em nome dessa mesma soberania", com cada Estado buscando sua própria salvação.
Alvorecer de uma Nova Era
A OPEP, como a conhecíamos há mais de meio século, fragmentou-se. Como explica Jorge León, da Rystad Energy, a Arábia Saudita foi praticamente deixada sozinha para arcar com o enorme custo da estabilização do fornecimento, o que prenuncia uma era de extrema volatilidade.
Enquanto o antigo cartel sangra devido a divisões internas e ao peso da guerra, uma janela de oportunidade sem precedentes se abriu para que os países importadores finalmente assumam o controle do mercado. A história já demonstrou, ao longo de 65 anos, que uma coalizão organizada de nações pode moldar os mercados globais de energia. A grande questão agora é se o mundo consumidor terá a coragem e a vontade política para fazer exatamente o mesmo.
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