Não é todo dia que você recebe um convite para ir pra “Marte”.
Apesar de estar a milhares de quilômetros, ser desértico, impróprio para a vida humana e ter até foguetes da SpaceX, Marte de que falo aqui não é o Planeta Vermelho.
Ele emerge da poeira densa do deserto de Sonora, na Califórnia, no sul da Falha de San Andreas, onde o próximo megaterremoto é uma questão de "quando" e não de "se".
Carinhosamente apelidado de “Marte”, Mars College é um projeto experimental que é ao mesmo tempo escola de Inteligência Artificial, residência artística e cidade pop-up. Durante três meses por ano, dezenas de artistas - os Marcianos - testam modos de viver juntos em uma região altamente hostil, como em um ensaio para o fim do mundo.
Para mim, o projeto explora como a resiliência em grupo pode ser capaz de fazer a vida florescer em qualquer lugar - até em Marte.
Os Marcianos constroem sua cidade efêmera com pallet racks, estruturas de metal, trailers e painéis solares. No fim do trimestre também a desmontam com as próprias mãos - sem deixar rastros.
Um universo solarpunk, onde a tecnologia é aliada para imaginar novas formas de existir, nutrindo aprendizados, experiências e sonhos.
Um convite para o cutting edge da IA
Ao aceitar o convite de Vanessa Rosa, artista brasileira pioneira de Marte, senti o peso de uma astronauta prestes a abandonar a gravidade da Terra. Deixar tudo para trás para morar três meses num "deserto alienígena" me trouxe medo. Mas o desconforto era o sinal: eu precisava cruzar aquela fronteira.
Eu já explorava a Inteligência Artificial Criativa há quase dois anos, e o convite era para integrar o Time de Pesquisa de IA Criativa de Mars College, o Mars Research, no cutting edge dessa tecnologia. Sob liderança de Gene Kogan, um dos pioneiros globais na união entre algoritmos e arte, lancei-me de cabeça nessa missão longínqua.
Pouso em solo marciano
Ao aterrissar em Mars College, logo percebi que as semelhanças com o planeta vizinho iam além do nome.
Fotos: Renata Chebel
O deserto ao redor é inóspito e com montanhas ao fundo que evocam vulcões marcianos. À noite, rovers elétricos - uniciclos e carrinhos de golfe - cruzam a poeira sob luzes neon. E o céu ocasionalmente exibe imensas "águas-vivas" luminosas - o rastro de foguetes da SpaceX lançados da Base de Vandenberg, uns 400 quilômetros dali.
Mas o que mais chama atenção é o calor e a engenhosidade dos Marcianos, capazes de transformar aquele cenário de Ficção Científica em um verdadeiro lar.
A fantasia coletiva de Bombay Beach
Minha base foi "Saturno", casa de Vanessa e Gene, em Bombay Beach propriamente dita. O vilarejo que abriga Marte não tem mais que 300 habitantes e é uma fantasia coletiva por si só.
Antigo resort frequentado por Frank Sinatra nos anos 50, o lugar é hoje um desastre ecológico fascinante, que já rendeu até documentário narrado por John Waters.
Quando o Salton Sea (Mar de Salton), único corpo de água da região, fruto de um antigo crime ambiental, tornou-se tóxico e começou a encolher, Bombay Beach se tornou uma verdadeira cidade fantasma.
Até que ao redor de 2016 ela foi reativada por um grupo de artistas, responsável pela Bombay Beach Biennale, evento anual realizado na cidade, que se intitula “uma celebração renegada de arte, música e filosofia”.
No entanto, viver ali é um paradoxo. De um lado, um espírito de liberdade absoluta. De outro, um ambiente com temperaturas e secura extremas, e um ar carregado de partículas de arsênico e pesticidas, vindas do leito seco do Salton Sea.
"E se fizéssemos um role play de uma faculdade no apocalipse por três meses?". Ouvi em uma reunião preparatória que foi como surgiu a ideia de Mars College. E a sensação não foi tão distante disso.
IA como combustível para conexão humana
Mars College nasceu como uma residência para estudar Inteligência Artificial, que segue sendo seu principal eixo de pesquisa, liderado por Gene Kogan.
O projeto experimental, que foi fundado por ele e Matt Freeman (com raízes no Vale do Silício e no Burning Man), opera sob a lógica da abundância. Imagine "hippies tecnológicos" usando a IA não para substituir o humano, mas para fomentar comunidade.
Gene é também um dos desenvolvedores da plataforma EDEN.ART, para artistas explorando com Inteligência Artificial, ferramenta que usamos no time.
O coração dessa pesquisa pulsa em Chiba, espaço coletivo e sistema nervoso central de Marte.
Alguns focos do Time de Pesquisa de IA Criativa de Mars College que mais se destacam para mim são:
- Expressão do Invisível: Explorar a IA para expressar aquilo que antes não éramos capazes, expandindo nossa criatividade e possibilidades enquanto artistas, conforme as ferramentas evoluem.
- Técnica Como Dispositivo: Usar a pesquisa e exploração de ferramentas Web3, em constante evolução, como gatilho para a criatividade e expressão artística.
- Automação do Bruto: Delegar o repetitivo à máquina para liberar espaço para o humano aprofundar a criação, além de buscar virtuosismo técnico e artístico.
- Tecnologia Humana: Usar a tecnologia não como força desumanizante, mas como combustível que nutre comunidade e senso de união entre o grupo.
O espelhamento no metaverso
Em Marte, vivemos a do-ocracy (faça-cracia): se você quer que algo exista, você é o responsável por construir. Assim, todos são ao mesmo tempo professores e alunos.
E minha contribuição foi com roteiro.
A prova de fogo veio na primeira aula que dei em inglês na vida. Ser uma mulher latina em um ambiente de mentes brilhantes me trouxe uma pressão palpável. "Você precisa se provar", a voz interna me dizia.
Mas consegui fazer meu nome. No dia seguinte, meu colega Vincent já havia desenvolvido através do Eden.art o Writing Assistant (Assistente de Escrita), um Agente Criativo baseado nos conceitos que ensinei na aula.
E é nessa criatividade voltada para o coletivo que para mim está a essência Marciana.
Mas a prova máxima de que a tecnologia é capaz de unir para mim veio com a AI Film Academy. A proposta deste braço do Time de Pesquisa era explorar ferramentas de IA para vídeo e apresentar nossos curtas-metragens no final do trimestre.
Para isso, através do Eden.art, treinamos LoRAs (ou Modelos) de nossos rostos e clonamos nossas vozes.
Assim, criamos um "Metaverso Marciano" onde estrelamos nossos próprios filmes, repletos de piadas internas e de sonhos compartilhados, como o “Martian’s Eleven”, o trailer de Heist que eu dirigi, baseado numa ideia do Vincent. A IA funcionava como um espelho que refletia os nossos laços.
Na penumbra de Chiba, ao ver nossas versões digitais projetadas na tela no AI Film Festival, compreendi a ironia poética: usamos a Inteligência Artificial para dar uma nova forma à tecnologia mais antiga e avançada que existe: o nosso afeto.
O efeito de visão panorâmica
Dizem que astronautas, ao sair da Terra e vê-la do espaço, sofrem o Overview Effect, uma mudança cognitiva que revela a unidade do mundo.
Ao retornar de Mars College, sinto algo semelhante. Saí de casa para estudar Inteligência Artificial, mas aprendi ainda mais sobre redes humanas.
Nós, Marcianos, não cruzamos galáxias, mas forjamos uma família global que torna o universo um pouco menos árido.
E você? Também consegue imaginar a Inteligência Artificial criando pontes? Escreve para a gente!
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