É uma daquelas lendas contadas tanto em saunas finlandesas quanto nos arranha-céus de Wall Street. Fala de avós que guardavam certificados empoeirados em seus armários de cozinha por décadas, e de donas de casa que, de repente, tinham mais capital do que o banco local. Mas, ao contrário de muitos contos de fadas do mercado de ações, esta história tem um fundo de verdade.
A cidade que compartilhou o nome
Para entender a história, é preciso viajar até onde tudo aconteceu: a cidade de Nokia, a cerca de 15 quilômetros a oeste de Tampere, na Finlândia. Muito antes de existir a palavra "smartphone", a empresa local Nokia era um conglomerado industrial clássico. Produzia papel, botas de borracha, pneus de carro, cabos e até papel higiênico.
Entre 1992 e 2000, o preço das ações da Nokia disparou. (Imagem: Adobe Stock / Jerome)
Numa época em que a propriedade de ações não era documentada por aplicativo, mas por um certificado físico, era tradição em Nokia possuir ações da empresa local.
Muitos moradores recebiam ações como parte de sua remuneração, por herança ou simplesmente as compravam por orgulho local. Para as donas de casa da cidade, essas ações muitas vezes faziam parte do fundo de emergência da família, essencialmente uma reserva para tempos difíceis.
O Big Bang da telefonia móvel
No final da década de 1980, a Nokia estava à beira do colapso. A empresa era muito fragmentada e inflexível. Mas, sob a liderança de Jorma Ollila, o impossível aconteceu: a empresa se desfez de suas divisões de botas e pneus de borracha e apostou tudo em uma única carta na manga: o novo padrão de comunicação móvel GSM.
O que se seguiu foi um dos aumentos mais rápidos no preço das ações na história econômica. Entre 1992 e 2000, o preço das ações da Nokia subiu vários milhares por cento.
Os milionários à mesa da cozinha
Enquanto banqueiros de investimento em Nova York e Londres negociavam freneticamente opções da Nokia, os verdadeiros vencedores estavam nas províncias finlandesas. As donas de casa da Nokia tinham algo que muitas vezes falta aos profissionais: paciência.
O Nokia 3310 foi um dos pioneiros do "boom" dos telefones celulares. (Imagem: Adobe Stock / megaflopp)
Como encaravam as ações não como um investimento especulativo, mas como um patrimônio familiar de longo prazo, não as venderam ao primeiro sinal de alta nos preços. Quando a Nokia ascendeu à liderança mundial do mercado e se tornou a empresa mais valiosa da Europa no final da década de 1990, pequenas participações que valiam algumas centenas de marcos finlandeses se transformaram em milhões.
Um relato local da época descreve cenas na agência do Nordea Bank, onde senhoras idosas apareciam no balcão com papéis amassados para perguntar sobre o valor atual de suas ações e ficavam surpresas ao descobrir que agora eram multimilionárias.
O Legado do "Boom"
A riqueza transformou a região. Mas o caráter finlandês fez com que a prosperidade recém-adquirida raramente fosse ostentada. As pessoas podiam comprar um trator novo ou reformar suas casas, mas os milionários da Nokia muitas vezes permaneciam invisíveis.
Hoje, o domínio da Nokia no mercado de telefones celulares é história, mas o milagre da Nokia continua sendo uma lição de sucesso por meio de mudanças radicais e da paciência que pode ser recompensadora em investimentos de longo prazo.
Imagem de capa | Adobe Stock; OleksKao
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