Acabamos de encontrar os banheiros de uma mansão em Pompeia; uma amostra do luxo e do lado mais sombrio dos romanos

Uma das descobertas mais recentes em Pompeia foi um enorme complexo de banhos que teria pertencido a uma das figuras mais importantes da cidade.

Banheiros da mansão Pompeia. Imagem: Pompeiisites
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Sofia Bedeschi

Redatora

Jornalista com mais de 5 anos de experiência no ramo digital. Entusiasta pela cultura pop, games e claro: tecnologia, principalmente com novas experiências incluídas na rotina. 

Pompeia é um dos grandes tesouros arqueológicos do mundo. Há 2.000 anos, a onda piroclástica do Vesúvio devastou e soterrou as cidades de Pompeia e Herculano e, embora as escavações arqueológicas tenham começado em 1739, ainda estamos desvendando os segredos daquela civilização.

Estima-se que um terço da cidade ainda esteja sob a terra, mas, nos últimos anos, descobrimos detalhes fascinantes — como o genoma de um habitante de Pompeia ou rolos de papiro carbonizados com informações tão valiosas quanto a possível localização do túmulo de Platão.

No ano passado, foi dado um passo importante para compreendermos melhor como era a sociedade da época.

Primeiro, foi descoberta uma “sala” com cerca de 15 metros de comprimento por seis de largura, que teria sido usada como sala de banquetes. A pintura preta das paredes ajudaria a disfarçar o fuligem das lamparinas a óleo, e um detalhe surpreendente é que os afrescos ainda estavam perfeitamente preservados. O segundo grande achado foi a chamada “sala azul”.

Essa sala talvez fosse ainda mais interessante, não apenas porque os afrescos também estavam em perfeito estado de conservação, mas por conta do pigmento azul — algo raro nos espaços pompeianos, já que era reservado aos cômodos mais nobres da casa. Além disso, foram encontradas grandes ânforas e diversos vestígios de… mariscos.

Agora, tudo faz sentido graças ao que foi classificado como “uma descoberta única em um século”: a sala azul e a sala negra faziam parte de uma residência destinada aos mais ricos entre os ricos.

A casa de Pompeia para o mais rico entre os ricos

Tanto a sala negra quanto a sala azul fazem parte de um mesmo complexo: uma vila de luxo com um dos maiores e mais bem estruturados banhos privados já descobertos... na história. E, para termos uma noção da grandiosidade da estrutura, é preciso imaginar algo como um spa — só que particular.

Os arqueólogos responsáveis pelas escavações detalharam à BBC News como era a residência, e o banho ocupava, de fato, uma posição de destaque.

Trata-se de um complexo no estilo balneário, que é o coração da imensa casa e conta com salas quentes e frias, além de uma enorme piscina de imersão.

Os cômodos são decorados com pintura vermelha nas paredes, afrescos, bancos de pedra e pisos de mosaico. Os arqueólogos definem o local como o exemplo perfeito do “efeito Pompeia” — ou seja, o grau de preservação é tão impressionante que parece que o lugar foi abandonado há poucos dias, quando, na verdade, já se passaram quase 2.000 anos desde o último banho tomado ali.

A casa. Em verde, a lavanderia. Em laranja, a padaria/cozinha. Em rosa, a residência privada. Em roxo, os banheiros A casa. Em verde, a lavanderia. Em laranja, a padaria/cozinha. Em rosa, a residência privada. Em roxo, os banheiros

Mas não é só o enorme banho: o complexo incluía a sala negra, a sala azul, o spa mencionado, uma lavanderia, quartos, uma padaria e ainda a residência privada propriamente dita. Acredita-se que tenha pertencido a Aulus Rustius Verus, um influente político pompeiano — e pode ser a maior descoberta já feita na cidade até agora.

“Pouquíssimas casas tinham um complexo de banhos privados, então isso era algo realmente reservado aos mais ricos entre os ricos. E este aqui é tão grande que provavelmente é o maior complexo de banhos já encontrado em uma residência privada em Pompeia”, comenta Gabriel Zuchtriegel, diretor do Parque Arqueológico de Pompeia.

Detalhe dos banheiros com o ambiente preto em roxo e acesso direto ao pátio com pórtico e piscina. A partir daí, você pode passar para outros banhos, como os quentes e os frios. Detalhe dos banheiros com o ambiente preto em roxo e acesso direto ao pátio com pórtico e piscina. A partir daí, você pode passar para outros banhos, como os quentes e os frios.

E o fato de o enorme banho ficar ao lado da padaria e da sala de jantar não é algo incomum. A conexão entre os banhos e o grande salão de refeições dá uma ideia de como a casa servia de cenário para banquetes e encontros entre as altas esferas da época.

Realizar um grande banquete com convidados e, depois, aproveitar um banho — ou o contrário — era uma ferramenta política para conquistar apoio eleitoral ou, simplesmente, ostentar poder.

E o que mais chama a atenção é a piscina, com um metro de profundidade, ocupando o centro de um pátio porticado de 10 por 10 metros. Zuchtriegel comenta: “tudo foi projetado para criar um espetáculo em que o proprietário fosse o centro das atenções. As pinturas, com temas da Guerra de Troia e cenas que retratam atletas, evocavam um ambiente repleto de cultura e erudição — além de relaxamento”.

Ele ainda argumenta: “o público, satisfeito e agradecido, teria aplaudido o espetáculo montado pelo anfitrião e dono da casa com sincera admiração, tornando-se assunto de conversa por um bom tempo”. E além dos próprios banhos, também foi encontrada a sala das caldeiras na parte de trás, com canos e sistemas de chumbo que aqueciam e distribuíam a água quente, além de um sistema de válvulas que regulava o fluxo entre os diferentes ambientes do spa.

Tudo isso também escancara as diferenças entre as classes sociais da época — enquanto os donos da casa se deliciavam com banhos suntuosos, os escravizados “cozinhavam” vivos ao alimentar os fornos para aquecer a água.

Você pode ver os canos de água quente Você pode ver os canos de água quente
Original

Nem todos tiveram tanta sorte

Claro, nem todas as descobertas arqueológicas revelam cenas tão agradáveis quanto um bom banquete ou um banho relaxante. Em um pequeno cômodo ao lado da sala azul, foram encontrados os restos mortais de dois pompeianos que não conseguiram escapar da erupção.

Acredita-se que fossem um homem e uma mulher, surpreendidos pelo fluxo piroclástico que já tomava as ruas.

Foi esse fluxo que causou o colapso de uma parede, esmagando o homem, enquanto a mulher ainda estava viva. Pouco depois, o cômodo foi tomado pela lava, o que causou sua morte.

A análise óssea revelou que o esqueleto masculino pertencia a uma pessoa jovem, mas com desgaste nos ossos — um indicativo de que provavelmente era alguém de status social mais baixo. Já a mulher era mais velha, mas seus ossos e dentes estavam em bom estado de conservação.

Além disso, no quarto foram encontrados diversos objetos de valor, incluindo joias e moedas que o esqueleto da mulher ainda segurava nas mãos.

Os pesquisadores acreditam que se tratava de pessoas de estratos sociais muito diferentes, mas que acabaram dividindo aquele espaço na tentativa de se refugiar do fluxo do Vesúvio. Não deu certo.

Sophie Hay, uma das arqueólogas que trabalha no local, comentou à BBC que “todo dia é uma surpresa” — algo que certamente continuará animando os pesquisadores, já que se estima que ainda existam mais de mil residências e cerca de 13 mil cômodos no bairro em escavação.

A arqueóloga também afirma que esse é um tipo de achado que “acontece uma vez a cada século” — e que revela não só a vida luxuosa e opulenta dos mais ricos, mas também as dificuldades enfrentadas por quem estava ali para servi-los. Neste caso, os que literalmente se “assavam” nas caldeiras para manter o banho quente enquanto o senhor da casa e seus convidados desfrutavam do conforto.

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