As ações da Tesla estão despencando por uma razão simples: ela sempre foi construída com base em um culto cego a Elon Musk

A promessa de oferecer um produto revolucionário salvou a empresa da falência, mas o envolvimento de Musk com a política agora representa um risco

As polêmicas de Elon Musk são responsáveis pela queda no preço das ações da Tesla? / Imagem: Google e Elon Musk no X
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Victor Bianchin

Redator

Victor Bianchin é jornalista.

Elon Musk é a pessoa viva mais importante?

Essa é a pergunta que circulava em alguns fóruns há apenas cinco anos. Ele foi, afinal, o homem que criou a Space X, a Starlink, a Neuralink e, claro, a Tesla. Se a companhia de carros elétricos superou seu próprio "vale da morte" depois de 10 anos com prejuízos, foi, entre outras coisas, pelo culto à figura de Elon Musk e suas promessas.

Mas dizer que foi exclusivamente por isso seria simplista demais. A empresa demonstrou que um carro elétrico para o dia a dia e prático para viagens era possível. Ela se moveu com astúcia quando passava por momentos difíceis, mas também encadeou promessas que não foram cumpridas, chegaram tarde ou foram cumpridas apenas parcialmente.

Por muito tempo, a Tesla perdeu dinheiro por muito tempo, mas manteve o apoio dos acionistas, algo que deve ser creditado a Elon Musk. Seu carro elétrico era quase revolucionário, com um interior que não se tinha visto até então e todo um "clube Tesla" ao redor do veículo. Conseguir que "carro elétrico" fosse sinônimo de "Tesla" foi construído com base em uma infraestrutura própria, um veículo que não tinha comparação no mercado e uma base de seguidores que acreditaram cegamente no produto.

Tudo isso fez com que Elon Musk fosse elevado à altura de um pseudomessias, o que se manteve até hoje. Em 2010, a revista Time já incluía Musk entre as 100 pessoas mais relevantes do ano. Em 2014, o El Confidencial já o colocava no primeiro lugar. Em 2018, o astrofísico Neil deGrasse Tyson, renomado divulgador nos Estados Unidos, comparava sua figura com Steve Jobs e Bill Gates e dizia que ele estava "inventando o futuro". Em 2021, a Time apontou Musk como a pessoa mais importante do ano.

Em pouco tempo, as coisas mudaram e, agora, as ações da Tesla despencaram.

Ou isso era algo esperado?

O homem mais poderoso "não eleito"

Com essas palavras o The Guardian descreveu Elon Musk. 2024 havia sido o ano em que o magnata conseguiu se estabelecer como uma das pessoas mais poderosas dos Estados Unidos.

Junto a Donald Trump, Musk não ocupa um cargo político propriamente dito, mas dirige uma agência à qual foram dados poderes para demitir milhares de servidores públicos se, simplesmente, eles não responderem a um e-mail. O CEO da Tesla está aplicando a mesma dinâmica nas estruturas do Estado que já implementou em suas próprias empresas, incluindo demissões que teve que reverter posteriormente.

Tudo isso veio com outras polêmicas, como o gesto nazista durante a ascensão ao poder de Donald Trump, o apoio a partidos de extrema direita como o AfD na Alemanha e propostas como o desmantelamento da Estação Espacial Internacional, entre outras atitudes.

Toda essa série de gestos, comentários e decisões provocou o previsível repúdio público. No Canadá, foram recolhidas centenas de milhares de assinaturas pedindo que o Estado retire a cidadania de Musk (que é filho de uma cidadã canadense). No Reino Unido, cartazes contra a Tesla e seu CEO foram colados com a mensagem clara: "De 0 a 1939 em três segundos", fazendo referência ao gesto nazista de Musk e à aceleração de seus carros. Na Alemanha, convocaram boicotes projetando uma imagem na Gigafactory da Tesla em Berlim. Nos Estados Unidos, protestos ocorreram em frente a concessionárias e alguns proprietários colocaram um aviso de "compre isso antes que Elon enlouqueça".

A imagem de Musk caiu drasticamente, sem dúvida, para muitos dos que acreditaram que a empresa viria para marcar um antes e um depois na indústria automobilística. Também é fácil entender que ela melhorou entre os eleitores de partidos que negam a mudança climática ou que, diretamente, começam a desmontar a rede de recarga de carros elétricos. Mas, existe uma correlação direta entre a imagem pública de Elon Musk e a queda nas ações da Tesla?

A verdade é que é uma pergunta de difícil resposta e teremos que esperar vários meses para podermos dar uma conclusão mais precisa. Só que é um momento delicado para a Tesla, que está substituindo o Tesla Model Y, o carro elétrico mais vendido do mundo (e um dos mais vendidos somando todos os tipos de tecnologias), por uma atualização que adiciona um design mais moderno.

A mudança, anunciada durante meses, provavelmente fez com que os potenciais compradores esperassem para conhecer o novo modelo. E a isso se soma o fato de que as novas unidades do Model Y não devem figurar na lista de vendas até o segundo trimestre, quando começarem a ser matriculadas. Só então é que conseguiremos ver o alcance real de todo o contexto em que vivemos agora.

É possível que parte do reajuste no preço das ações da Tesla (que começou o ano valendo 370 dólares e já baixou para 280) tenha algo a ver com números em 2024 que não cumpriram as expectativas, mas é muito provável que tenha muito mais a ver com um ajuste que deveria chegar em algum momento.

Sempre se falou da Tesla como um "cult stock". Esse termo se refere às ações que se baseiam nas promessas da empresa ou de seus líderes, mas que não têm uma base econômica que as sustente. É a definição perfeita de como a empresa manteve a confiança cega dos investidores ao longo dos anos, apesar de suas perdas contínuas.

A isso se soma o fato de que as ações da companhia dispararam em 2020 e, posteriormente, no ano passado. Naquele momento, os analistas não conseguiam justificar, nas palavras da Bloomberg, os motivos que estavam por trás de um crescimento desmedido. Seu preço atingiu 90 vezes o valor de seus lucros futuros.

As promessas de ações com preços elevados ajudaram a manter o valor das ações muito acima do preço real. Falou-se, por exemplo, que o valor da companhia alcançará 800 bilhões de dólares em 2029, impulsionado pelo serviço de robotáxis prometido por Elon Musk no ano passado.

Esse valor elevado fez com que alguns analistas o definissem como "uma ação meme", dado o alto custo da mesma. Estamos vivendo um ajuste acelerado disso. Será que a má imagem de Elon Musk está arrastando a Tesla? Será pelos maus resultados de vendas? Ou, simplesmente, porque o valor da ação estava completamente inflacionado? O tempo dirá.

Foto | Google e Elon Musk no X

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.

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