China descobriu uma vantagem para vencer a corrida de porta-aviões contra os EUA: uma "bolha" em sua defesa

A expansão da frota de porta-aviões da China e sua integração à estratégia A2/AD (Anti-Acesso/Negação de Área) mudaram o cenário de segurança na região do Indo-Pacífico.

China descobriu uma vantagem para vencer a corrida de porta-aviões contra os EUA: uma "bolha" em sua defesa. Imagem: GoodFon, Baycrest
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Sofia Bedeschi

Redatora

Jornalista com mais de 5 anos de experiência no ramo digital. Entusiasta pela cultura pop, games e claro: tecnologia, principalmente com novas experiências incluídas na rotina. 

Há pouco mais de uma década, a frota de porta-aviões dos Estados Unidos olhava para trás e não via absolutamente ninguém. Não havia uma única nação que chegasse perto de sua supremacia operacional e quantitativa.

Mas, em apenas dez anos, isso mudou. Em 2024, sua frota mostrou ser a líder ao enfrentar ataques massivos de drones e mísseis no Mar Vermelho. Porém, agora, ao olhar para trás, alguém está se aproximando rapidamente: a China.

O dado que muda tudo

O poder demonstrado pelos Estados Unidos no Mar Vermelho é possível graças à poderosa frota de 11 porta-aviões, que domina tanto o Atlântico quanto o Pacífico.

No entanto, um novo rival está emergindo rapidamente: a China, que passou de não ter nenhum porta-aviões há pouco mais de uma década para ter atualmente três, além de um ambicioso plano de expansão com um quarto em desenvolvimento, possivelmente com propulsão nuclear.

Historicamente, a China foi uma potência terrestre. Mas, no caminho para se tornar uma superpotência naval, priorizou a modernização de sua frota.

Desde a aquisição do Liaoning, em 2012, um casco soviético reconstruído, até o lançamento do avançado Fujian, em 2022, o país não só provou que pode construir porta-aviões, como também projetá-los e operá-los de forma independente. Além disso, a China conta com uma "bolha defensiva" que lhe dá vantagem.

2049, a data marcada em vermelho

O objetivo da China é claro: possuir pelo menos sete porta-aviões até 2049, ano do centenário da Revolução Chinesa e data em que Pequim fixou, inicialmente, sua meta de reunificação com Taiwan, por meios pacíficos (ou militares).

Atualmente, a Marinha do Exército de Libertação Popular (PLAN) já supera a Marinha dos Estados Unidos em número de embarcações, com mais de 370 navios contra 295 americanos. Não há dúvida de que, se a China conseguir expandir sua frota de porta-aviões e melhorar sua tecnologia no ritmo atual, poderá desafiar diretamente a supremacia naval dos EUA no Indo-Pacífico.

O futuro da guerra de porta-aviões

Se os Estados Unidos e a China mantiverem suas atuais taxas de desenvolvimento, a década de 2040 será um momento decisivo para o equilíbrio naval global.

Os Estados Unidos planejam implantar seu caça de sexta geração, chamado Next Generation Air Dominance (NGAD), projetado para superar as limitações do F-35 e oferecer maior alcance e capacidade de ataque. Com a combinação de F-35C e NGAD, a frota americana terá uma vantagem em combate aéreo de longo alcance.

Por outro lado, a China desenvolverá o caça J-35, sua versão do F-35, e possivelmente introduzirá um novo avião de combate naval (J-XX). Além disso, contará com seu próprio avião de alerta antecipado KJ-600, equivalente ao E-2 Hawkeye.

Uma estratégia diferente

Diferentemente da Marinha dos Estados Unidos, onde os porta-aviões são o centro de sua estratégia marítima, a China não parece depender deles como a base do seu poder naval.

Em vez de usá-los para projetar poder globalmente, a Marinha do Exército Popular de Libertação (PLAN) opera seus porta-aviões dentro de um ambiente altamente protegido, resguardado por sua avançada estratégia de anti-acesso/negação de área (A2/AD, em inglês).

Esse sistema defensivo foi projetado para dominar a Primeira Cadeia de Ilhas (que inclui Japão, Taiwan e Filipinas) e neutralizar qualquer tentativa de intervenção militar dos Estados Unidos na região.

Em outras palavras, os porta-aviões chineses, por si só, não são uma ferramenta de supremacia naval global. São, na verdade, multiplicadores de força dentro do escudo defensivo A2/AD, o que lhes permite operar com mais segurança e apoiar a crescente influência de Pequim no Indo-Pacífico.

A expansão dos porta-aviões na estratégia. Segundo o The National Interest, o desenvolvimento da frota de porta-aviões da China tem sido rápido e metódico. O que começou com o Liaoning, aquele antigo casco soviético reconstruído e até menosprezado pelas potências navais, tornou-se um programa de construção naval cada vez mais avançado e ambicioso.

Como mencionado anteriormente, atualmente a China possui três porta-aviões. São eles: o Liaoning (2012), usado principalmente para treinamento e testes. Depois, o Shandong (2019), uma versão aprimorada do Liaoning, embora ainda com limitações tecnológicas, como o sistema de decolagem por rampa (ski-jump).

E, por fim, o Fujian (2022), o mais avançado até agora, com catapultas eletromagnéticas (EMALS) e um design que o aproxima dos padrões dos porta-aviões norte-americanos.

Original O Liaoning

Um quarto a caminho

O quarto porta-aviões, cujo lançamento está previsto para os próximos anos, pode representar um marco para a China, caso seja de propulsão nuclear. Isso aumentaria significativamente sua autonomia e capacidade de operar longe das costas chinesas.

A chave: uma bolha

O conceito de anti-acesso/negação de área (A2/AD) baseia-se na combinação de mísseis de longo alcance, radares avançados e sistemas de guerra eletrônica para criar um escudo defensivo que dificulta a entrada de forças inimigas em uma região específica.

Nesse sentido, a China desenvolveu uma sofisticada rede A2/AD no Indo-Pacífico, utilizando mísseis balísticos antinavio (como o DF-21D e o DF-26), sistemas de defesa aérea avançados, submarinos silenciosos e tecnologia de interferência eletrônica para dissuadir e neutralizar a presença militar dos Estados Unidos na região.

De fato, graças a essa espécie de "bolha de defesa", os porta-aviões chineses não precisam operar de forma independente nem se aventurar longe de suas costas. Em vez disso, podem se mover com relativa segurança dentro da área protegida, utilizando seus aviões para reforçar o controle de Pequim sobre Taiwan e o Mar do Sul da China.

Por outro lado, os porta-aviões dos Estados Unidos não possuem esse nível de proteção no Pacífico Ocidental. Embora a Marinha americana continue sendo a força naval mais poderosa do mundo, seus grupos de ataque de porta-aviões podem ser ameaçados ao operar dentro do alcance dos mísseis chineses, o que os expõe a um risco muito maior.

Impacto estratégico

Diante disso, a estratégia de Pequim muda completamente as regras do jogo no Pacífico. Em vez de competir diretamente com os Estados Unidos no número de porta-aviões e na capacidade de projeção de poder, a China está construindo uma força naval projetada para tornar os porta-aviões americanos menos eficazes dentro de sua esfera de influência.

Isso leva inevitavelmente a uma suposição: se houvesse um conflito na região, os Estados Unidos enfrentariam grandes dificuldades para operar perto da costa chinesa sem sofrer ataques massivos.

Em contraste, os porta-aviões chineses, protegidos por sua bolha A2/AD, poderiam operar com relativa liberdade, reforçando a presença aérea e marítima de Pequim, sem a necessidade de desafiar diretamente a Marinha americana em mar aberto.

A resposta dos Estados Unidos

A vantagem da China em A2/AD, portanto, apresenta um dilema para o Pentágono. Embora os Estados Unidos ainda liderem em termos de capacidade operacional e experiência em combate com porta-aviões, seu domínio no Pacífico já não é mais absoluto.

Por isso, estão desenvolvendo novas estratégias, como o uso de forças dispersas para evitar que a China destrua grandes agrupamentos navais com um único ataque, novos mísseis hipersônicos e sistemas de guerra eletrônica para neutralizar a bolha A2/AD, além da integração de drones avançados e caças de sexta geração para aumentar o alcance e a letalidade das forças americanas sem expor diretamente seus porta-aviões ao perigo.

Apesar disso, o tempo e os acontecimentos dos últimos 10 anos parecem jogar a favor da China. A cada ano que passa, sua rede A2/AD se torna mais sofisticada... e sua frota de porta-aviões continua a crescer.

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