Enviar 167 lobos para as Terras Altas para lutar contra veados: o plano louco da Escócia para salvar suas florestas

Nos últimos anos, vimos muitas propostas diante da emergência climática. Esta última, do Reino Unido, não parece nada fácil.

Mudança de ambiente no futuro. Imagem: Pexels, ISK
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Sofia Bedeschi

Redatora

Jornalista com mais de 5 anos de experiência no ramo digital. Entusiasta pela cultura pop, games e claro: tecnologia, principalmente com novas experiências incluídas na rotina. 

Se a ciência não estiver errada — e temos décadas de exemplos que indicam que não está —, a emergência climática se torna cada vez mais urgente, exigindo que a gente tente se antecipar a esse “elefante na sala” que é a crise no clima do planeta.

Nos últimos anos, vimos propostas das mais variadas, desde encher a estratosfera com pó de diamante até provocar chuva em desertos usando fazendas solares. Agora, o Reino Unido acaba de apresentar uma ideia que ninguém esperava.

Reintroduzir lobos nas Highlands

Um estudo realizado pela Universidade de Leeds sugere que a reintrodução de lobos nas Highlands da Escócia poderia impulsionar a expansão das florestas nativas e contribuir significativamente para a captura de carbono. Segundo os pesquisadores, esse processo permitiria armazenar até 1 milhão de toneladas de dióxido de carbono (CO₂) por ano — o equivalente a cerca de 5% da meta de remoção de carbono do Reino Unido por meio de suas florestas.

Contexto: o impacto de um mundo sem lobos

Ao longo dos séculos, os lobos foram perseguidos em toda a Europa por causa do impacto que causavam à pecuária e por ordens de reis. Para se ter uma ideia: na Inglaterra, o rei Eduardo I (1272–1307) ordenou sua erradicação total — processo que foi concluído durante o reinado de Henrique VII (1485–1509).

Na Escócia, por conta da geografia montanhosa e da baixa densidade populacional, os lobos conseguiram sobreviver até o século XVII, embora sempre perseguidos. Já em 1283, caçadores de lobos recebiam recompensas em Stirling, e em 1427 o rei Jaime I da Escócia promulgou leis para sua eliminação. No entanto, a extinção definitiva dos lobos na região aconteceu há cerca de 250 anos.

Essa erradicação teve consequências ecológicas sérias, sendo uma das mais graves a superpopulação de cervos-vermelhos — hoje, uma espécie completamente fora de controle. Estima-se que existam atualmente cerca de 400 mil cervos-vermelhos na Escócia, número que cresceu sem controle devido à ausência de predadores naturais. Esse aumento causou um problema grave de sobrepastoreio, já que os cervos se alimentam de brotos jovens de árvores, impedindo a regeneração natural das florestas.

Como o retorno dos lobos pode ajudar

O estudo utilizou um modelo predador-presa de Markov para analisar os possíveis efeitos da reintrodução de lobos na dinâmica ecológica escocesa. Os dados indicam que uma população de aproximadamente 167 lobos poderia reduzir a densidade de cervos para menos de quatro por quilômetro quadrado — o que permitiria que as árvores voltassem a crescer de forma natural.

O estudo também aponta benefícios ecológicos e climáticos com essa medida, como a expansão das florestas nativas, que atualmente cobrem apenas 4% do território escocês, tornando a Escócia uma das regiões menos arborizadas da Europa. Outro benefício seria a captura de carbono: o aumento da massa florestal permitiria a absorção de até 1 milhão de toneladas de CO₂ por ano.

E há também o valor econômico da reintrodução: cada lobo poderia contribuir para a absorção de 6.080 toneladas de CO₂ por ano, o que equivale a 154 mil libras por lobo, considerando o valor da captura de carbono.

A palavra do autor principal

Sobre isso, o professor Dominick Spracklen, autor principal do estudo, destacou a importância de enfrentar ao mesmo tempo a crise climática e a crise da biodiversidade.

Ele reforçou que processos naturais, como a reintrodução de espécies, podem desempenhar um papel essencial na recuperação de ecossistemas degradados — gerando benefícios tanto para o meio ambiente quanto para o clima.

Desafios da proposta

Claro, essa ideia não é exatamente nova. Já vimos, no passado, outros casos em que predadores foram introduzidos em determinados ecossistemas para tentar controlar ou eliminar outras espécies — e, em alguns casos, os resultados foram desastrosos.

Além disso, apesar de o projeto ter grande potencial ecológico, a reintrodução de lobos na Escócia continua sendo um tema controverso e exigiria um manejo cuidadoso, especialmente em áreas próximas a povoados e zonas de criação de gado.

Os autores do estudo apontam alguns desafios importantes, como os conflitos com pecuaristas e agricultores, que temem ataques ao gado; a resistência por parte de caçadores de cervos, cuja atividade pode ser impactada pela redução da população de presas; e a percepção pública e aceitação social, já que a presença de lobos ainda gera preocupação em algumas comunidades rurais.

Sobre isso, o coautor do estudo, Lee Schofield, destacou que, antes de qualquer reintrodução, seria essencial realizar um processo de consulta pública e envolvimento das partes interessadas.

Ele também enfatizou que conflitos entre humanos e predadores são comuns, e por isso qualquer estratégia deve incluir políticas que minimizem o impacto sobre a população e a economia local.

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