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É hora de encarar: não é que a gente não consiga mais prestar atenção às coisas — é que, na verdade, não queremos

179 estudos de 32 países distintos ao longo de 31 anos atestam: nossa atenção vem melhorando há anos

Estudo mostra que nossa atenção está intacta, o problema é querer fazer muita coisa ao mesmo tempo / Imagem: Cristofer Maximilian
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Victor Bianchin

Redator

Victor Bianchin é jornalista.

"Não consigo fazer nada por mais de quinze minutos sem olhar para o celular". Soa familiar? Já há algum tempo se discute a possibilidade de que o excesso de aparelhos eletrônicos e de estímulos esteja causando uma diminuição generalizada da nossa capacidade de atenção. Mas será que isso é verdade?

A pergunta não é absurda. Principalmente porque o debate não é tanto sobre se a memória (a atenção ou outras capacidades cognitivas) muda com o uso dos dispositivos móveis. É claro que muda. Muda funcionalmente e também em nível estrutural. Manuel Sebastián, pesquisador da Unidade de Cartografia Cerebral da Universidade Complutense, explica que "sabemos que o texto que inclui links tende a ser lembrado de modo pior em geral, o que é totalmente lógico, pois eles funcionam como distrações, e o papel da atenção é fundamental para a memória".

No entanto, como Sebastián também lembra, "o fato de que a informação seja processada de forma diferente não é necessariamente algo ruim". A questão é saber se essas mudanças são para pior e se estão nos tornando mais vulneráveis a certos fenômenos do mundo.

O que está acontecendo com nossa atenção?

Há alguns meses, uma equipe da Faculdade de Psicologia da Universidade de Viena, resolveu fazer essa pergunta, mas a resposta não foi simples. Afinal, para respondê-la, precisamos ir além das sensações pessoais e encontrar medições da atenção em diversos contextos, épocas e faixas etárias. Além disso, essas medições não poderiam ser apenas teóricas, mas deveriam estar relacionadas à resolução de problemas concretos. Onde poderiam encontrar esse tipo de dado?

Só havia uma resposta: nos testes de inteligência.

Durante décadas, psicólogos aplicaram esses testes a milhões de pessoas e, graças a isso, temos uma enorme base de avaliações psicométricas. Pois bem, entre essa imensa quantidade de dados, há testes específicos de atenção.

Quando perceberam isso, os pesquisadores reuniram 179 estudos com 287 amostras independentes de 32 países ao longo de 31 anos. Ou seja, coletaram dados de mais de 20.000 pessoas e analisaram se, ao longo dessas três décadas, havia um declínio na atenção.

Os resultados foram surpreendentes. Quando analisaram crianças, adolescentes e jovens, perceberam que suas pontuações permaneceram estáveis ao longo dos anos. Já entre os adultos, descobriram que, na verdade, as pontuações melhoraram. Sim, você leu certo: nossa atenção vem melhorando há anos.

Então, não estamos perdendo a capacidade de atenção?

Como afirma Adam Grant, professor de psicologia organizacional em Wharton, o problema nunca foi a atenção, mas sim a motivação. Se quisermos usar nossa atenção, temos capacidade para isso; o problema é que, na maior parte do tempo, simplesmente não queremos. Estamos tão cercados por estímulos interessantes e atraentes que acabamos caindo na armadilha da multitarefa.

E, claro, isso tem consequências. Na verdade, é provável que sejam essas consequências que mais percebemos e que nos dão a sensação de que estamos perdendo a capacidade de prestar atenção.

Ou seja, estamos "enganando" a nós mesmos. Sabemos que dividir a atenção entre vários meios ao mesmo tempo (por exemplo, assistir a um filme enquanto checamos o celular) tem um impacto negativo na memória. Ou seja, lembramos de forma pior do que vemos quando estamos fazendo outras coisas ao mesmo tempo. O problema é que, quando começamos a lembrar menos dos filmes, culpamos nossa capacidade de atenção, em vez de considerar a forma como os assistimos. Tudo acaba se confundindo.

E é preciso ter cuidado com isso, porque, se tirarmos conclusões a partir de achismos, será impossível recuperar o domínio sobre nossa capacidade de atenção.

Imagem | Cristofer Maximilian

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.

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