Nos últimos meses, vieram à tona vários fatos relacionados direta ou indiretamente à região do Pacífico. A saber: a China realizou mais de 3.000 incursões aéreas sobre Taiwan, a Groenlândia voltou a ser um foco de tensão, Pequim está construindo um ponto de lançamento de mísseis em uma ilha estratégica e os EUA estão lançando mísseis em Guam “para ver o que acontece”. Com esse cenário, um estudo revelou que, caso ocorra uma eventual guerra no Pacífico, haveria um claro vencedor: a China.
China e o concreto
Um recente relatório do Hudson Institute, dos EUA, intitulado Concrete Sky: Air Base Hardening in the Western Pacific, detalha como a China transformou sua rede de bases aéreas no Pacífico ocidental em uma fortaleza quase impenetrável. Desde o início da década de 2010, o Exército Popular de Libertação (EPL) mais do que dobrou a quantidade de abrigos reforçados para aeronaves, passando de 370 para mais de 800.
Ao que parece, os abrigos são construídos com concreto reforçado e aço em quantidades nunca vistas e equipados com portas à prova de explosões, suficientemente resistentes para suportar ataques diretos. Além disso, os abrigos não reforçados, que oferecem proteção parcial contra estilhaços, aumentaram de 1.100 para mais de 2.300. Com mais de 3.000 abrigos no total, a China pode proteger a maioria de seus aviões de combate em caso de conflito.
Comparação com os EUA
Aqui está um dos pontos-chave do relatório em termos bélicos. Esse nível de preparação da China contrasta de forma alarmante com os modestos investimentos dos EUA e de seus aliados asiáticos na fortificação de bases. O estudo deixa isso muito claro e destaca que as bases aéreas americanas no Pacífico são altamente vulneráveis.
De fato, em um eventual conflito por Taiwan, os pesquisadores indicam que a China precisaria de uma quantidade mínima de mísseis para incapacitar as instalações críticas dos EUA, enquanto seriam necessários ataques massivos e repetidos contra as bases asiáticas para alcançar um efeito semelhante.
Os autores destacam, por exemplo, que apenas 10 mísseis equipados com submunições já seriam suficientes para neutralizar a Estação Aérea do Corpo de Fuzileiros Navais em Iwakuni, no Japão, uma das instalações mais importantes da região. Em outras palavras, a análise revela um grave desequilíbrio estratégico que favorece a China e poderia dar ao EPL uma vantagem decisiva nas etapas iniciais de um conflito.
A desvantagem americana
O relatório aponta principalmente para algo que já havia sido comentado no ano passado e que estava deixando os “americanos” atrás de Rússia e China: a falta de investimento na fortificação de bases por parte dos EUA. Nesse sentido, o relatório destaca que isso se deve, em parte, a uma percepção equivocada herdada da Guerra do Golfo de 1990-91.
Durante aquele conflito, as forças americanas destruíram ou pelo menos danificaram 375 dos 594 abrigos reforçados do Iraque com armas de precisão, o que teria levado a uma visão distorcida de que essas estruturas eram facilmente penetráveis. No entanto, os pesquisadores destacam que os avanços em materiais de construção, como o concreto super-reforçado utilizado pela China, tornaram as gerações atuais de abrigos muito mais resistentes.
Ataques preventivos chineses
A análise também adverte que a doutrina militar chinesa valoriza ataques preventivos como um meio de desestabilizar o inimigo desde o início do conflito. Com bases aéreas mal protegidas, os Estados Unidos e seus aliados na Ásia correm o risco de serem surpreendidos e neutralizados antes de poderem reagir. Nesse contexto, é dada especial atenção a Taiwan, onde um ataque surpresa poderia alterar rapidamente o equilíbrio de poder.
Para combater essa ameaça, o relatório sugere que os EUA deveriam tomar medidas urgentes para fortalecer suas bases aéreas e melhorar sua capacidade de defesa. Entre as principais recomendações estão:
- Investir na fortificação de bases: Construir abrigos reforçados capazes de resistir a ataques diretos, mesmo que isso implique na redução da aquisição de aeronaves avançadas. Segundo os autores, o custo de adquirir um B-21 Raider a menos por ano poderia financiar a construção de 100 abrigos em cinco anos.
- Priorizar a defesa ativa: Implementar sistemas avançados de defesa antimísseis nas bases mais vulneráveis para proteger aeronaves, depósitos de combustível e equipamentos essenciais.
- Redirecionar recursos do Exército dos EUA: Alocar pessoal e equipamentos do Exército para a defesa de bases aéreas, reforçando as forças de artilharia de defesa aérea e reduzindo o foco em forças terrestres tradicionais.
- Fomentar operações dispersas: Adotar estratégias como o conceito de Emprego de Combate Ágil (ACE), que permite operar a partir de pistas curtas ou danificadas e utilizar sistemas não tripulados menos dependentes de infraestrutura.
E se nada for feito…
O estudo conclui com outra possibilidade: que nada mude o status quo. Nesse caso, os autores, Tom Shugart e Timothy Walton, ressaltam que não abordar essa vulnerabilidade poderia ter consequências catastróficas. A falta de fortificação e de defesas adequadas nas bases aéreas americanas não apenas colocaria em risco a segurança regional, mas também poderia incentivar a China a adotar medidas agressivas caso o país de Xi Jinping percebesse uma oportunidade estratégica.
Em resumo, um estudo que destaca o enorme esforço da China nos últimos anos para reforçar suas bases aéreas e fortalecer sua infraestrutura e suas defesas nas bases aéreas do Indo-Pacífico. A quantidade massiva de concreto utilizada é suficiente para cobrir a distância entre Tóquio e Seul. Segundo os autores, as bases aéreas têm concreto suficiente para pavimentar uma rodovia de quatro faixas de Washington até Chicago.
Em contraste, parece que os Estados Unidos ou qualquer aliado não teriam a menor chance aérea em um eventual conflito.
Imagem | US Air Force
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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