Em meio à crise global do tabaco, a indústria encontrou um aliado que impulsiona as vendas: a China

  • As vendas de cigarros vêm crescendo há anos na China, enquanto caem no restante do mundo.

  • O setor é uma importante fonte de receita para os cofres do Estado chinês, com perspectivas de alta.

Crise do tabaco. Imagens:  Jonathan Kos-Read (Flickr), Max van den Oetelaar (Unsplash) y Beth Macdonald (Unsplash)
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Sofia Bedeschi

Redatora

Jornalista com mais de 5 anos de experiência no ramo digital. Entusiasta pela cultura pop, games e claro: tecnologia, principalmente com novas experiências incluídas na rotina. 

Ying Yuhao tem 21 anos, é um universitário chinês e recentemente confessou ao Sixth Tone que sente repulsa pelo cheiro da fumaça do tabaco. Assim como a imensa maioria das pessoas de sua idade, ele também sabe que os cigarros fazem muito mal à saúde.

No entanto, Ying fuma. No trabalho, quando está estressado, para se concentrar ou socializar. Ele lembra, por exemplo, que durante seu estágio de verão em Hangzhou, fumava quase diariamente para não parecer rude com seus colegas de escritório sempre que lhe ofereciam um cigarro. “Se eu recusasse, parecia que estava desrespeitando eles”, confessa o jovem.

O caso de Ying é muito mais do que uma curiosidade. De certa forma, ele reflete a complexa relação da China com o tabaco.

China, um país de fumantes

Ying é apenas uma gota no vasto oceano de fumantes que existe na China. Basta analisar alguns números para entender: estima-se que o país tenha mais de 300 milhões de consumidores de tabaco e a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que um em cada três cigarros consumidos no mundo é aceso lá.

De modo geral, cerca de 24,1% dos adultos chineses são fumantes, um percentual que, até pouco tempo atrás, chegava perto dos 30%.

No entanto, esse dado não reflete toda a realidade. Os verdadeiros dependentes da nicotina são os homens como Ying. Em 2015, por exemplo, a prevalência do tabagismo entre eles era de 52,1%, enquanto entre as mulheres o número era de apenas 2,7%.

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Mais cigarros vendidos

Embora o gigante asiático tenha reduzido ligeiramente seus índices de tabagismo — passando de uma taxa de 26,6% em 2018 (entre maiores de 15 anos) para pouco mais de 24% em 2022 —, os números ainda estão bem acima da média mundial, que, segundo o The Tobacco Atlas, girava em torno de 17% no início desta década.

Os percentuais podem não coincidir exatamente com os da Organização Mundial da Saúde (OMS), mas a entidade detecta uma queda global no consumo de tabaco, apesar da resistência da indústria.

Na China, essa tendência merece atenção especial. Embora a taxa de tabagismo tenha caído levemente, as vendas de cigarros aumentaram. Após quatro anos consecutivos de crescimento, as vendas no varejo atingiram 2,44 trilhões de unidades em 2023, segundo dados da Euromonitor. E a projeção indica que essa alta deve continuar, chegando a cerca de 2,48 trilhões em 2028.

Velho hábito, novas tendências

Essa aparente contradição — uma taxa menor de tabagismo, mas com vendas mais altas — pode ter uma explicação simples: o sucesso dos cigarros slim no mercado chinês. Anunciados como uma opção menos prejudicial ao organismo, eles se encaixam nas mudanças de comportamento da sociedade chinesa.

“Algumas empresas tabagistas produzem cigarros mais curtos especificamente para passageiros de trens de alta velocidade, que só conseguem dar algumas tragadas”, explica Jiang Yuan, diretora do Think Tank Research Center, ao Sixth Tone. Outra tendência que ganhou popularidade no mercado local são os cigarros aromatizados, impulsionando um setor que movimenta bilhões de dólares em receita.

Mudando o cenário global

O sucesso da indústria do tabaco na China ajudou a atenuar, em parte, a queda no consumo de cigarros registrada no mundo ao longo das últimas décadas. Desde 2016, o gráfico de vendas no país segue uma curva ascendente, enquanto a tendência global mostra estagnação ou declínio nos últimos anos. De acordo com a Euromonitor, entre 2019 e 2023, as vendas anuais de cigarros caíram cerca de 2,7% no restante do mundo.

Ganhando peso… e influência

Essa dupla tendência também explica por que a participação da China no mercado global de cigarros cresceu significativamente nos últimos anos. Em 2009, o país respondia por menos de 38% das vendas mundiais. No ano passado, essa fatia já havia subido para 47%.

A CNBC destacou em novembro outro fator essencial para entender o peso da China no setor internacional: a expansão da China Tobacco, a gigante estatal que praticamente monopoliza a venda de tabaco no país. Antes focada no mercado interno, a empresa ampliou sua atuação global nos últimos anos, alcançando cerca de 20 países em 2019 e encerrando 2023 com um aumento de 22,2% nas exportações.

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Questão de receita (e impostos)

Na China, o tabaco não é apenas um hábito — e um com graves impactos na saúde, como alertam a OMS e diversos especialistas. Ele também é um pilar econômico, o que tem um efeito direto sobre os cofres do Estado. Zhengming Chen, da Universidade de Oxford, explica isso de forma clara em entrevista ao Financial Times: “O primeiro ponto é que ele gera uma receita gigantesca. Por isso, todas as medidas de controle acabam não sendo muito eficazes”.

O mesmo veículo lembra que a China National Tobacco Corporation gerou cerca de 206 bilhões de dólares em receita tributária em 2023, representando uma fatia considerável do fluxo financeiro que entra para o governo central chinês.

Além disso, dados do Statista mostram que os lucros e taxas arrecadadas da indústria do tabaco no país não param de crescer desde 2016 — e as projeções do mercado seguem otimistas.

E qual é a posição do governo?

Casos como o de Ying ajudam a ilustrar o quão enraizado o hábito de fumar está na cultura chinesa, especialmente entre os homens jovens.

O governo está ciente disso — e também dos danos do tabaco à saúde. Por isso, apesar da importância econômica do setor, algumas medidas foram adotadas nos últimos anos para reduzir o consumo.

Os gráficos de consumo de cigarros, por exemplo, mostram uma queda entre 2014 e 2016, coincidindo com a decisão de algumas grandes cidades chinesas de restringir o fumo em locais fechados. No entanto, as vendas não demoraram a se recuperar, atingindo novamente patamares elevados em 2023.

“Estagnada ou até mesmo retrocedendo”

“A legislação para o controle do tabaco está estagnada ou até mesmo retrocedeu em algumas regiões”, afirma Wang Qingbin, professor da Universidade de Ciências Políticas da China, ao Sixth Tone.

Diante da desaceleração econômica que o país enfrenta, qualquer decisão que afete um setor gerador de empregos, receita e com perspectivas de crescimento se torna ainda mais complexa. Outro fator importante é que a China delegou as políticas de controle do tabaco às administrações locais, o que, segundo alguns especialistas, resultou em um cenário fragmentado e irregular.

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