A taxa de natalidade na Alemanha parece não ter fundo. De acordo com o Instituto Alemão de Pesquisa Econômica, em 2024 o índice deve cair para 1,35 filhos por mulher, bem abaixo dos 1,58 registrados em 2021. Trata-se de um novo mínimo histórico — e o pior não é isso.
O mais preocupante é que ninguém se surpreende. Afinal, quem ficaria chocado ao ver a natalidade despencar em um país rico e envelhecido como a Alemanha? Embora ainda não tenha chegado aos níveis da Espanha, a trajetória demográfica do país segue um roteiro há muito tempo previsível.
No entanto, ao analisar os dados, algo chama atenção: nos estados do leste — os que faziam parte da antiga Alemanha Oriental e possuem níveis de renda mais baixos — o número de nascimentos está diminuindo ainda mais rápido do que no oeste. Isso reforça uma realidade incontestável: a queda na natalidade não é um fenômeno exclusivo de países ricos.
É uma tendência que afeta toda a humanidade.
O melhor exemplo é a Índia
Principalmente porque, em 2023, o gigante indiano superou a China e se tornou o país mais populoso do mundo.
Ainda assim, os demógrafos estão preocupados. Recentemente, a BBC destacou que "atualmente, os cinco estados do sul da Índia têm taxas de fertilidade totais abaixo de 1,6: Karnataka, 1,6; e Tamil Nadu, 1,4. Em outras palavras, as taxas de fertilidade nesses estados são iguais ou até inferiores às de muitos países europeus". E isso tem consequências: a população indiana está envelhecendo em um ritmo acelerado.
Derrubando mitos
Especificamente, o mito de que a queda na natalidade está restrita aos países desenvolvidos. Enquanto a França levou 120 anos para que sua população idosa dobrasse de 7% para 14% (e a Suécia, 80 anos), a previsão é que a Índia atinja esse marco em apenas 28 anos.
Da mesma forma, enquanto os Estados Unidos demoraram 160 anos para reduzir a taxa de fecundidade de 3,7 filhos por família para 2,7, as Filipinas fizeram isso em apenas 15 anos. Não importa para onde se olhe, o problema é sempre o mesmo: a mudança demográfica está se acelerando e ninguém sabe como lidar com isso. A consequência direta? Está se tornando incontrolável.
Um beco sem saída
O envelhecimento da população impõe desafios enormes às sociedades. Nos países ricos, onde há mais recursos, esses problemas podem ser gerenciados com mais facilidade. Mas, nos países mais pobres, a situação se complica ainda mais. Um exemplo claro disso é o estado indiano de Andhra Pradesh, que tem uma taxa de fertilidade de 1,5 filhos por mulher – semelhante à da Suécia, mas com um PIB per capita 28 vezes menor.
Se até a Suécia, dona de um dos sistemas de previdência mais sustentáveis do mundo, enfrenta dificuldades, como esperar que Andhra Pradesh consiga lidar com esse cenário?
O filme Filhos da Esperança (2007) explorou as consequências sociais, econômicas, políticas e culturais de um mundo sem crianças. O que ninguém imaginava é que, mesmo sem os elementos típicos da ficção científica, estaríamos nos aproximando dessa realidade tão rapidamente.
O que está causando tudo isso?
A maioria dos demógrafos concorda que o principal fator por trás da queda da natalidade é o avanço da urbanização. Isso tem sido claramente observado na África, onde o continente está se urbanizando quase duas vezes mais rápido do que o resto do mundo – e suas taxas de natalidade estão caindo praticamente no mesmo ritmo.
Outros fatores também influenciam esse declínio, podendo acelerar ou desacelerar a tendência. No entanto, as cidades parecem expor as pessoas a uma série de incentivos socioculturais e econômicos que levam à redução das taxas de natalidade.
Existe solução?
Se existe, ninguém a descobriu ainda. O mundo está cada vez mais urbanizado: em 2007, pela primeira vez, metade da população global já vivia em cidades. Hoje, esse número chegou a 55%, e a previsão é que atinja 66% até 2050.
Como não há um modelo alternativo às megacidades hiperprodutivas, estamos caminhando para um mundo cada vez mais vazio.
E as consequências mais severas desse fenômeno recairão, justamente, sobre os países mais vulneráveis.
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