Um fenômeno que já aconteceu em Nova York está se espalhando pelo Japão: bairros com mais chineses do que japoneses

O surgimento de novas 'Chinatowns' no Japão marca uma mudança histórica na composição social do país.

ChinaTowns em Nova York cresce a cada dia. Imagem: Pexels, Wpcpey
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Sofia Bedeschi

Redatora

Jornalista com mais de 5 anos de experiência no ramo digital. Entusiasta pela cultura pop, games e claro: tecnologia, principalmente com novas experiências incluídas na rotina. 

Em fevereiro, alguns sinais começaram a aparecer em diferentes regiões do Japão. É verdade que o país está vivendo um boom turístico como há muito tempo não se via, impulsionado também pelo Ano Novo Lunar, que aumentou ainda mais o número de visitantes.

Mas, em meio às multidões, uma presença se destacou: a da China. E não apenas pelo número de turistas que chegam, mas principalmente pelos que decidem ficar — ao que tudo indica, de forma permanente.

Uma vida no Japão, sem falar japonês

Quem trouxe esse panorama foi o jornal Nikkei. O Japão passa por uma transformação demográfica e cultural significativa, com o surgimento de bairros com forte presença chinesa, onde os migrantes já são maioria e conseguem viver, trabalhar e se socializar praticamente sem precisar do idioma japonês.

Um dos principais exemplos é a região a noroeste de Ikebukuro, em Tóquio, onde tem se formado uma espécie de “Nova Chinatown”, com supermercados, restaurantes, lojas de eletrônicos, farmácias e serviços voltados especialmente para a comunidade chinesa.

Moradores como Tang, um editor que vive na capital japonesa há três anos, afirmam que conseguem resolver tudo pelo celular, com apoio de compatriotas, sem enfrentar barreiras linguísticas ou burocráticas.

Esse ambiente — que alguns já chamam de “zona econômica chinesa” dentro do Japão — permite que os migrantes mantenham seus laços culturais e sociais sem se afastar de suas origens.

Do centro aos subúrbios

Esse movimento não se limita ao centro de Tóquio. Cidades como Kawaguchi, na província de Saitama, mostram como essa rede tem se expandido também para os subúrbios.

No conjunto habitacional Kawaguchi Shibazono Danchi, por exemplo, metade das 2.454 unidades são ocupadas por famílias chinesas. A região ao redor se transformou completamente para atender às necessidades dessa comunidade, com creches, comércios, restaurantes e farmácias administrados por chineses — tudo sinalizado em mandarim.

Moradores como Zhang Min e Wang Youkun destacam que, com a presença cada vez maior de compatriotas, tornou-se desnecessário dominar o idioma japonês, o que facilita a rotina e fortalece os laços com o novo lar.

Já antigos residentes como Liu Baocai, que começaram a vida nesses conjuntos, agora estão comprando casas individuais na mesma cidade — um sinal claro de que muitos migrantes estão optando por se estabelecer de forma permanente no Japão.

Substituição demográfica e envelhecimento

Há meses se fala de um dos principais desafios que o Japão enfrenta: o envelhecimento acelerado da população. Nesse contexto, essa reconfiguração social tem se destacado especialmente em regiões onde a população japonesa diminuiu devido à baixa natalidade e ao envelhecimento.

Em Kawaguchi, escolas que antes estavam lotadas acabaram sendo fechadas, enquanto os moradores japoneses que permaneceram — em sua maioria idosos — observam a transformação dos bairros ao redor em comunidades com forte presença chinesa.

O caso de Tetsuya Mashimo, de 86 anos, que vive no conjunto desde sua inauguração em 1978, ilustra bem essa mudança: segundo ele, o local “se tornou completamente um condomínio chinês”.

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Mihama e Warabi: novas “Chinatowns”

Outras regiões, como Mihama (em Chiba) e Warabi, também registraram um crescimento expressivo da população chinesa, impulsionado principalmente pela proximidade com o centro de Tóquio e pelo custo de vida mais acessível. Em Warabi, os chineses já representam 8% da população total — o maior percentual do país.

Mihama, por sua vez, abriga cerca de 5.700 residentes chineses e conta com grandes conjuntos habitacionais como Takasu Daiichi Danchi e Saiwai-cho Danchi. Ambos são administrados pela Urban Renaissance Agency (UR), que tem promovido ativamente a vinda de estrangeiros com incentivos como isenção de fiador, taxas de renovação e até mesmo do valor conhecido como “dinheiro-chave” (um depósito tradicionalmente exigido no Japão para alugar imóveis).

Fenômeno nacional: presença chinesa em quase todo o Japão

Em nível nacional, o fenômeno se espalhou de forma ampla e consistente. De acordo com uma investigação do Nikkei, cidadãos chineses vivem hoje em 1.603 dos 1.741 municípios do Japão — o que representa 92% do total.

Em 128 desses municípios, o número de residentes chineses já ultrapassa os mil, com maior concentração na região metropolitana de Tóquio, mas também com presença significativa em áreas rurais.

Em Shimukappu, no centro de Hokkaido, os chineses representam 5% da população local, composta por cerca de 1.600 habitantes — muitos atraídos pelo turismo de esqui. Já em Sarufutsu, no norte da ilha, 3,4% da população é formada por técnicos em treinamento que atuam no processamento de vieiras. Situações semelhantes são observadas em Tobishima (Aichi) e Kawakami (Nagano), onde os trabalhadores se inserem nos setores agrícola e industrial.

Residência permanente: uma tendência em crescimento

Esse movimento também se explica pelo aumento do número de chineses com residência permanente no Japão. Atualmente, o país abriga cerca de 840 mil cidadãos chineses, sendo que mais de 330 mil possuem status de residência permanente — um número que cresceu em 100 mil nos últimos oito anos, impulsionado também pela flexibilização das regras de permanência.

Mais do que uma expansão numérica, esse dado aponta para uma tendência clara de fixação. As novas gerações estão nascendo, crescendo e construindo suas vidas no Japão, consolidando um processo de integração silencioso, mas profundo.

Transformação demográfica no Japão: a força das novas comunidades chinesas

O surgimento dessas novas “Chinatowns” no Japão marca uma transição histórica na composição social do país. Em um cenário de envelhecimento acelerado e despovoamento nas áreas rurais, a comunidade chinesa não apenas preenche lacunas populacionais — mas também constrói redes sólidas de apoio, comércio e cultura, permitindo que seus membros vivam com conforto, sem abrir mão de sua identidade.

Essa tendência, no entanto, também levanta questões importantes sobre o futuro da coesão social no Japão, as políticas de integração e o próprio significado de pertencimento em uma sociedade que se torna, aos poucos, mais diversa — o que é especialmente relevante num país historicamente homogêneo como o Japão.

Ao mesmo tempo, o movimento revela como uma comunidade migrante, organizada e autossuficiente, pode transformar paisagens urbanas e rurais, criando novos polos de vida em regiões que antes pareciam destinadas ao declínio.

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