Medo da guerra ativou um plano no Japão: como esvaziar suas ilhas mais próximas de Taiwan em seis dias

Proximidade com Estreito de Taiwan, assim como crescente presença da China nas águas próximas, fazem com que sensação seja de ameaça constante

Imagem | Frota do Pacífico dos EUA
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PH Mota

Redator

Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

Duas notícias nos últimos meses acabaram trazendo algo revelador. A primeira delas veio no final de janeiro, quando muitas das Ilhas Sakishima (as mais próximas de Taiwan) começaram uma série de exercícios de evacuação num fim de semana qualquer. Logo depois, o Japão tomou uma decisão histórica: implantar mísseis de longo alcance em algumas dessas ilhas. Alcance suficiente para chegar à China. Agora, diante das dúvidas sobre um conflito militar, os japoneses oficializaram um plano.

Missão de evacuação

O Japão apresentou pela primeira vez um plano formal para evacuar mais de 100 mil civis, entre moradores e turistas, de ilhas remotas próximas a Taiwan, especificamente o arquipélago de Sakishima, localizado na ponta sudoeste do país. O plano surge em meio à crescente tensão militar no Estreito de Taiwan, onde a ameaça de uma possível invasão chinesa tem levantado preocupações em Tóquio e na comunidade internacional.

Para ser exato, a medida contempla a evacuação de aproximadamente 110 mil moradores e 10 mil turistas, por meio da mobilização de navios e aviões para oito prefeituras nas regiões oeste e sudoeste do Japão, com o objetivo de concluir a operação num prazo máximo de seis dias. Os evacuados seriam inicialmente transferidos para a ilha de Kyushu e de lá distribuídos para diferentes destinos que já estão sendo preparados com acomodações temporárias.

Preparativos e exercícios militares

Os exercícios de preparação foram realizados, mas sem grandes explicações sobre o motivo principal. Agora, como parte do reforço da segurança e logística, o governo japonês anunciou que a partir de abril do ano que vem realizará exercícios de evacuação nas Ilhas Sakishima, que fazem parte da prefeitura de Okinawa, região-chave que abriga quase 50 mil tropas americanas e historicamente considerada estratégica para a defesa do Japão.

Além disso, foram confirmadas a instalação de unidades de mísseis terra-ar na ilha de Yonaguni, localizada a apenas 100 km de Taiwan, e a construção de abrigos subterrâneos temporários, equipados com alimentos e suprimentos para pelo menos duas semanas. Essas medidas buscam melhorar a capacidade de defesa contra um possível ataque e garantir a proteção das populações locais.

Tensões em ascensão

Embora o plano de evacuação não mencione explicitamente Taiwan, está claro que o gatilho para a iniciativa é a crescente possibilidade de que a ilha autogovernada (reivindicada pela China como parte de seu território) se torne o epicentro de um conflito militar.

A China aumentou sua pressão militar sobre Taiwan nos últimos anos e não descartou o uso da força para garantir a "reunificação". O precedente da invasão da Ucrânia pela Rússia e o endurecimento das posições geopolíticas, especialmente após o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, aumentaram os temores de que o Estreito de Taiwan se torne o próximo grande foco de conflito na Ásia.

Estados Unidos e a fraqueza da aliança

Possivelmente, a principal razão que levou o Japão a implementar mísseis de longo alcance e a formalizar um plano de evacuação é a incerteza com a posição dos Estados Unidos. O plano de evacuação foi amplamente divulgado em Taiwan, onde gerou interpretações preocupantes sobre a confiabilidade das alianças regionais. Muitos analistas taiwaneses e locais veem a iniciativa japonesa como um sinal de que Tóquio não confia plenamente em Washington, sob a política "America First" de Trump, para manter seu compromisso com a defesa diante de um conflito no estreito.

A isso se somam as recentes declarações de Trump, questionando a reciprocidade do tratado de segurança EUA-Japão e ressaltando que Tóquio não é obrigada a defender os Estados Unidos em caso de agressão, o que acentuou essas preocupações. Um cenário que levou à percepção de que o Japão está se preparando "discretamente" para garantir sua retirada de áreas vulneráveis ​​sem depender da intervenção dos EUA.

Fortalecer a defesa regional

Além da evacuação e militarização das Ilhas Sakishima, o Japão intensificou sua estratégia defensiva por meio do planejado posicionamento de mísseis de longo alcance em Kyushu, ampliando sua capacidade de resposta às ameaças do continente asiático.

Ao mesmo tempo, as Ilhas Senkaku, disputadas com a China e administradas pelo Japão, continuam a ser um ponto de discórdia que pode complicar ainda mais a segurança na região. O governo japonês deixou claro que todas as medidas são parte de uma estratégia abrangente baseada na antecipação de "ataques armados iminentes", como disse Yoshimasa Hayashi, secretário-chefe do gabinete.

Vulnerabilidade nas ilhas

A população das ilhas mais expostas compartilha a preocupação do governo. O The Guardian relatou que Gen Nakatani, Ministro da Defesa, reconheceu recentemente o "forte senso de crise" percebido entre os habitantes dessas ilhas, que historicamente testemunharam disputas territoriais e manobras militares na região.

A proximidade de Yonaguni e outras ilhas do arquipélago ao Estreito de Taiwan, bem como a crescente presença da China nas águas circundantes, tornam a sensação de ameaça constante. Portanto, a combinação de evacuação planejada, fortalecimento de abrigos, implantação de armas e cooperação com Washington, apesar das tensões, tem um objetivo bastante claro: fortalecer a resiliência do Japão a uma possível escalada militar.

Imagem | Frota do Pacífico dos EUA

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