Os gostos e costumes culinários de alguns países podem parecer curiosos pra quem vê de fora. E nem é preciso ir tão longe: há alguns anos, surgiu o #SwedenGate — uma polêmica envolvendo o costume sueco de não oferecer comida aos convidados.
Uma tradição mais nórdica que causa estranhamento para culturas mediterrâneas.
Indo para o outro lado do mundo, na China, descobrimos uma preferência peculiar por uma fruta com cheiro forte que eles colocam até na pizza.
Mas há outra paixão por lá: as cerejas. Eles gostam — e muito. Gostam tanto que compram em grandes quantidades de um país que se tornou seu principal fornecedor e com quem abriram até uma rota comercial exclusiva pra isso: o Chile.
Uvas e cerejas no fim do ano
Cada país tem seus próprios rituais e tradições para certas festividades. As doze uvas na virada do ano são um exemplo clássico. Na Espanha, usa-se a uva fresca e verde, enquanto em Portugal e em alguns países da América Latina, a tradição também existe — mas com uvas-passas.
Na China, a tradição está menos ligada ao consumo e mais ao ato de presentear. A fruta escolhida? A cereja. Isso porque as cerejas são vistas como símbolo de boa sorte para o novo ano, além de representarem renovação.
A cor vermelha está associada à fortuna, à alegria, e as cerejas se tornaram um presente comum e um item de grande importância nas celebrações em família.
Globalização
Na China, as cerejas não simbolizam apenas boa sorte, mas também união familiar. Isso não é novidade, mas o impacto cultural dessa tradição mudou nos últimos anos por um motivo específico: a globalização.
Antigamente, o consumo e o ato de presentear com cerejas estavam associados à qualidade e à exclusividade — quase como um item de luxo para as famílias. Isso acontecia porque, apesar de a China cultivar cerejas, nessa época do ano a produção é limitada por conta das condições climáticas.
É aí que o Chile entra na equação: como é verão por lá, o país passou a abastecer o mercado chinês com suas cerejas.
Febre
Com isso, o consumo disparou. Em 2016, o Chile exportava cerca de 40 mil toneladas de cerejas para a China. Em 2023, esse número passou de 370 mil toneladas. Para a última temporada, a estimativa é que a cifra chegue perto das 660 mil toneladas. O Chile está inundando o mercado chinês — e isso transformou aquele produto exclusivo em algo mais acessível, permitindo que qualquer pessoa possa consumir.
Impacto no Chile
Para o mercado chileno, isso caiu como uma luva. A cereja é um dos principais produtos do país, representando quase 40% do valor total da produção de frutas. Estima-se que a alta demanda chinesa tenha feito com que mais de 90% das exportações chilenas destinadas a esse mercado sejam justamente de cerejas.
Cherry Express
Foi preciso encontrar novas formas de exportar cerejas para a China, atendendo a duas necessidades principais: aumentar o volume e garantir que a fruta chegasse mais rápido ao gigante asiático.
E não só para acelerar o processo, mas também para manter as cerejas frescas. A solução? O “Cherry Express”, uma rota comercial inaugurada no início de 2024, criada para melhorar a conexão entre os portos chilenos de San Antonio e Valparaíso e o porto de Tianjin, na China.
Esse porto fica bem próximo a Pequim, um dos grandes centros consumidores de cerejas. Com a nova rota, os prazos foram reduzidos, os processos agilizados e os custos diminuíram — o que também ajuda a baratear o preço final da fruta no mercado chinês.
Além disso, os navios que operam essa rota receberam inovações tecnológicas que monitoram constantemente os parâmetros dos contêineres refrigerados, garantindo que a fruta chegue em condições ideais.
Preocupação com os preços
Essa inundação de cerejas também tem um lado negativo que os produtores chilenos começaram a sentir nos últimos meses: a superprodução e a superexportação.
Ao perceberem o grande apetite da China por cerejas, os agricultores chilenos passaram a focar intensamente nesse cultivo. Estima-se que a produção tenha aumentado em 40% na última safra. Mas, se na China não se vende tanto quanto se exporta, o preço despenca.
Essa situação já começa a preocupar os produtores chilenos, pois a estimativa é de que o preço das cerejas nesta última temporada tenha caído entre 30% e 60%.
O problema não é só o excesso de oferta e a consequente queda nos preços, mas também a redução da demanda — impulsionada pelo momento da economia chinesa, que pode levar à diminuição do consumo de produtos considerados não essenciais.
Reação chilena
Essa situação já está fazendo com que, no país latino-americano, se questione a sustentabilidade a longo prazo da indústria, tanto que existem estratégias, como as promovidas pela ProChile, que visam à diversificação de mercados e à melhoria da competitividade, com um objetivo claro em mente: que a indústria não dependa dos preços de uma única semana de um único produto.
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