Tendências do dia

Após anos de desastre demográfico, a Coreia do Sul finalmente aumentou a sua taxa de natalidade

  • Em 2024, o país quebrou uma sequência de quase uma década, com 242.300 nascimentos, 3,1% a mais do que em 2023.

  • O aumento no número de falecimentos suaviza seu efeito em um país que já está oficialmente "superenvelhecido".

Taxa de Natalidade na Coréia do Sul aumenta. Imagens: Open Government Partnership (Flickr) y Jens-Olaf Walte (Flickr)
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Sofia Bedeschi

Redatora

Jornalista com mais de 5 anos de experiência no ramo digital. Entusiasta pela cultura pop, games e claro: tecnologia, principalmente com novas experiências incluídas na rotina. 

Talvez não seja o melhor momento político para o país, nem no âmbito interno nem em relação ao seu vizinho do norte, mas a Coreia do Sul se despediu de 2024 com uma boa notícia. Uma daquelas sobre as quais os jornalistas e analistas não escrevem há um tempo. Pela primeira vez em quase uma década, o país viu sua taxa de natalidade crescer. De forma moderada, muito tímida, e entre outros indicadores demográficos que desenham um cenário sombrio; mas crescimento, no final das contas.

A grande questão é se esse "broto verde" revela uma mudança de tendência em uma nação que, há algumas semanas, assumiu oficialmente que se tornou uma "sociedade superenvelhecida".

Um número, uma boa notícia

2024 não foi o melhor ano para a política sul-coreana. A nível nacional, ainda não superou a ressaca da tentativa de lei marcial do presidente Yoon Suk-yeol. E além de suas fronteiras, sua relação com Kim Jong-un claramente se deteriorou nos últimos meses.

Mas, no que diz respeito à demografia, 2024 foi, ao menos, menos ruim do que outros anos anteriores. De acordo com os dados publicados pelo governo sul-coreano, o ano que acabou de terminar registrou 242.334 nascimentos, 3,1% a mais que em 2023.

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Quebrando a má fase

Trata-se de um crescimento muito pequeno, é verdade, mas para avaliá-lo corretamente é preciso olhar para trás e considerar o panorama geral. Esses 242.334 nascimentos representam cerca de 7.300 a mais do que em 2023 e, principalmente, rompem a tendência negativa que a Coreia do Sul vinha apresentando desde 2015, último ano com um aumento na natalidade. Desde então, a curva havia sido claramente decrescente, para desespero das autoridades, que já tentam há tempos reverter essa situação.

"Um sinal positivo".

As autoridades sul-coreanas não perderam a oportunidade de celebrar o dado, que, para o vice-ministro do Interior e Segurança, Kim Min-jae, deve ser entendido como uma prova de que ainda há esperança. "Embora nossa população esteja diminuindo há cinco anos consecutivos, o aumento de nascimentos registrado pela primeira vez em nove anos é um sinal positivo", destacou o dirigente.

Para consolidar o dado e "manter a reversão nas tendências de natalidade", Min-jae defendeu a colaboração entre as administrações com um objetivo claro: facilitar para aqueles que querem ter filhos.

São todos dados favoráveis? Não.

E isso fica claro também ao olhar para as tabelas do serviço estatístico sul-coreano. 2024 trouxe um aumento de 3,1% nos nascimentos, mas o número geral está muito abaixo do que o país tinha há pouco tempo. No ano passado, nasceram aproximadamente 242.000 bebês na Coreia do Sul, mas em 2015 eram 444.000, e há apenas cinco anos o número se aproximava de 310.000.

No geral, os dados do World Bank Group mostram que desde os anos 60, o país tem visto sua taxa de fecundidade cair de forma alarmante: de 5,9 em 1960 para 0,8 há três anos. Em 2023, atingiu um novo mínimo histórico com 0,72.

Mais nascimentos, mais mortes

A natalidade não é a única coisa que aumentou na Coreia do Sul. 2024 também registrou mais mortes. Durante o ano, foram 360.757 falecimentos, 1,93% a mais do que em 2023. O resultado é que, mesmo com o aumento no número de bebês nascendo nos hospitais do país, a foto geral não é boa. Embora a população tenha caído em menor medida que em 2023, ela ainda diminuiu, sem que o saldo migratório pareça ter resolvido a situação.

O resultado é que o país ficou em 2024 com 51,21 milhões de habitantes, marcando o quinto ano consecutivo de queda. A idade média da população também aumentou, situando-se em 45,3 anos, segundo dados coletados pelo The Korea Times, o que mantém a sociedade sul-coreana no caminho que já vem percorrendo há um tempo: um envelhecimento progressivo.

Em dezembro, o país se tornou oficialmente o que é conhecido como uma população "superenvelhecida", onde mais de 10,24 milhões de pessoas (20% do total) têm mais de 65 anos.

Questão de idades

O termo "superenvelhecida" é mais do que uma simples etiqueta teórica. Ele nos ajuda a entender melhor a estrutura da sociedade sul-coreana e qual é a realidade que está por trás dos números globais de nascimentos, falecimentos e censos.

Por exemplo, um dado revelador é que, se analisarmos a população por faixas etárias, o grupo com maior peso seria o dos 50 aos 60 anos, seguido pelos sexagenários. As crianças pequenas, com menos de 10 anos, representam apenas 6,1%.

O que nos diz a pirâmide

Há alguns dias, @Molson-Hart compartilhou no X uma representação da pirâmide populacional do país no final de 2023 e acompanhou com uma mensagem contundente: "Hoje, na Coreia do Sul, vivem mais pessoas de 84 anos do que de 1 ano."

Os jornais The Korea Herald e The Korea Times compartilham uma leitura igualmente forte, com base nos últimos dados divulgados por Seul: os idosos têm um peso populacional muito maior que os jovens, e o país continua vendo a diminuição do grupo em idade de trabalhar.

Miragem ou tendência?

A grande pergunta é... O aumento da natalidade de 2024 marca um ponto de inflexão ou é simplesmente um aumento pontual, uma miragem? No outono, a Coreia do Sul já tinha dados positivos que sugeriam uma recuperação na natalidade e nos casamentos. A dúvida que pairava na época era se esses indicadores mostravam uma mudança real de tendência ou eram resultado da ressaca da pandemia, um aumento proveniente dos nascimentos e casamentos que simplesmente foram adiados pelo COVID-19.

Se há algo que é claro é que o governo sul-coreano tem se esforçado há muito tempo para que isso não aconteça. O país tem proposto ajudas diretas para a natalidade, estratégias para unir seus jovens, iniciativas para facilitar a conciliar o trabalho e a vida familiar… Tudo isso para conter uma crise de natalidade com impactos importantes no campo socioeconômico e até mesmo militar. A grande questão, à vista dos últimos dados, é... Será que finalmente conseguiu?

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